Enunciado
Árvores de araque — Você está vendo alguma coisa esquisita nessa paisagem? — perguntou o meu amigo Fred Meyer. Olhei em torno. Estávamos no jardim da residência da Embaixada do Brasil no Marrocos, onde ele vive — é o nosso embaixador no país —, cercados de tamareiras, palmeiras e outras árvores de diferentes tipos. Um casal de pavões se pavoneava pelo gramado, uma dezena de galinhas d’angola ciscava no chão, passarinhos iam e vinham. No terraço da casa ao lado, onde funciona a Embaixada da Rússia, havia um mar de parabólicas, que devem captar até os suspiros das autoridades locais. Lá longe, na distância, mais tamareiras e palmeiras espetadas contra um céu azul de doer. Tudo me parecia normal. — Olha aquela palmeira alta lá na frente. Olhei. Era alta mesmo, a maior de todas. Tinha um ninho de cegonhas no alto. — Não é palmeira. É uma torre de celular disfarçada. Fiquei besta. Depois de conhecer sua real identidade, não havia mais como confundi-la com as demais; mas enquanto eu não soube o que era, não me chamara a atenção. Passei os vinte dias seguintes me divertindo em buscar antenas disfarçadas na paisagem. Fiz dezenas de fotos delas, e postei no Facebook, onde causaram sensação. A maioria dos meus amigos nunca tinha visto isso; outros já conheciam de longa data, e mencionaram até espécimes plantados no Brasil. Alguns, como Luísa Cortesão, velha amiga portuguesa que acompanho desde os tempos do Fotolog, têm posição radicalmente formada a seu respeito: odeiam. Parece que Portugal está cheio de falsas coníferas. [...] A moda das antenas disfarçadas em palmeiras começou em 1996, quando a primeira da espécie foi plantada em Cape Town, na África do Sul; mas a invenção é, como não podia deixar de ser, Made in USA. Lá, uma empresa sediada em Tucson, Arizona, chamada Larson Camouflage, projetou e desenvolveu a primeiríssima antena metida a árvore do mundo, um pinheiro que foi ao ar em 1992. A Larson já tinha experiência, se não no conceito, pelo menos no ramo: começou criando paisagens artificiais e camuflagens para áreas e equipamentos de serviço. Hoje existem inúmeras empresas especializadas em disfarçar antenas de telecomunicações pelo mundo afora(a), e uma quantidade de disfarces diferentes. É um negócio próspero num mundo que quer, ao mesmo tempo, boa conexão e paisagem bonita, duas propostas mais ou menos incompatíveis. Os custos são elevados(b): um disfarce de palmeira para torre de telecomunicações pode sair por até US$ 150 mil, mas há fantasias para todos os bolsos, de silos e caixas d’água à la Velho Oeste a campanários, mastros, cruzes, cactos, esculturas. A Verizon se deu ao trabalho de construir(c) uma casa cenográfica inteira numa zona residencial histórica em Arlington, Virgínia, para não ferir a paisagem com caixas de switches e cabos. A antena ficou plantada no quintal, pintada de verde na base e de azul no alto; mas no terreno em frente há um jardim sempre conservado no maior capricho e, volta e meia,(d) entregadores desavisados deixam jornais e revistas na porta(e). A brincadeira custou cerca de US$ 1,5 milhão. A vizinhança, de início revoltada com a ideia de ter uma antena enfeiando a área, já se acostumou com a falsa residência, e até elogia a operadora pela boa manutenção do jardim. RONAI, C. O Globo, Economia, p. 33, 22 mar. 2014. Adaptado. Vocabulário: de araque - expressão idiomática que signifi ca “falso”. O par de frases em que as palavras destacadas possuem a mesma classe gramatical é:
Alternativas
- A)
“em disfarçar antenas de telecomunicações pelo mundo afora” – O pelo daquele cachorro está brilhando.
- B)
“Os custos são elevados:” – Os elevados são vias de passagem necessárias às grandes cidades.
- C)
“A Verizon se deu ao trabalho de construir” – Eu trabalho sempre de manhã e à tarde.
- D)
“no maior capricho e, volta e meia,” – É necessário dar uma volta na praça para chegar à rua principal.
- E)
“desavisados deixam jornais e revistas na porta.” – As provas foram revistas por especialistas.
Gabarito e comentário
Resposta correta: D
Olá, futuro servidor público! Vamos analisar essa questão de Português, focando na classe gramatical das palavras destacadas. **1. Por que a alternativa D está correta:** Na alternativa D, temos: * **"volta e meia"**: "volta" aqui funciona como um **substantivo** (significando "vez", "ocasião"). * **"dar uma volta"**: "volta" também é um **substantivo** (referindo-se a um "passeio", "giro"). Ambas as ocorrências de "volta" são substantivos, portanto, a classe gramatical é a mesma. **2. Por que as demais estão erradas (brevemente):** * **A) "pelo mundo afora" (preposição + artigo) x "O pelo daquele cachorro" (substantivo):** Classes diferentes. * **B) "Os custos são elevados" (adjetivo) x "Os elevados são vias" (substantivo):** Classes diferentes. * **C) "trabalho de construir" (substantivo) x "Eu trabalho sempre" (verbo):** Classes diferentes. * **E) "entregadores desavisados" (adjetivo) x "provas foram revistas" (verbo no particípio):** Classes diferentes. A chave para resolver essa questão é analisar o contexto em que cada palavra é usada, pois uma mesma palavra pode pertencer a classes gramaticais diferentes dependendo da frase. Bons estudos!