CESGRANRIO — Inspetor de Segurança Interna — Interpretação de texto — concepção de língua como uso cotidiano — 2011

Enunciado

Texto I As três experiências Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. “O amar os outros” é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca. E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever. Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres. Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera. [...] LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 101-102. Adaptado. Texto II Pronominais Dê-me um cigarro Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido Mas o bom negro e o bom branco Da Nação Brasileira Dizem todos os dias Deixa disso camarada Me dá um cigarro ANDRADE, Oswald. Pronominais. In: MORICONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores poemas do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 35. Tanto o Texto I quanto o Texto II defendem, de maneira subentendida, um modo de ver a língua, em que ela se

Alternativas

  1. A)

    constrói a partir de regras que definem as noções de “certo” e “errado”.

  2. B)

    pauta em regras padrões baseadas no uso individual.

  3. C)

    resume às regras prescritas pela gramática normativa.

  4. D)

    constitui no uso que dela fazemos em nossa vida cotidiana.

  5. E)

    forma por meio das regras estabelecidas pela norma-padrão.

Gabarito e comentário

Resposta correta: D

Olá, futuros servidores! Vamos analisar essa questão de Português, que aborda um tema importante: a relação entre a língua e seu uso. **Por que a alternativa D está correta?** A alternativa (D) afirma que a língua "se constitui no uso que dela fazemos em nossa vida cotidiana". Ambos os textos, de Clarice Lispector e Oswald de Andrade, defendem essa ideia. * **Texto I (Clarice Lispector):** A autora diz que "para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós" e que "o único estudo é mesmo escrever". Isso mostra que, para ela, a língua não é um conjunto de regras fixas, mas algo vivo, que se aprende e se aprimora na prática, na experiência diária de viver e expressar-se. A língua é uma ferramenta para a vida, não um fim em si mesma. * **Texto II (Oswald de Andrade):** O poema "Pronominais" contrasta a "gramática do professor e do aluno" (as regras formais) com o "bom negro e o bom branco da Nação Brasileira" que dizem "Me dá um cigarro". Essa oposição evidencia que o uso real, cotidiano e espontâneo da língua, mesmo que não siga a norma culta, é válido e constitui a língua viva do povo. O poema valoriza a fala popular em detrimento da rigidez gramatical. Ambos os autores, de maneiras distintas, sublinham a importância do uso real e prático da língua, e não apenas de suas regras formais. **Por que as demais

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