FCC — Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Arquitetura — Vírgula em expressão explicativa — 2014

Enunciado

QUANDO A CRASE MUDA O SENTIDO Muitos deixariam de ver a crase como bicho-papão se pensassem nela como uma ferramenta para evitar ambiguidade nas frases. Luiz Costa Pereira Junior O emprego da crase costuma desconcertar muita gente. A ponto de ter gerado um balaio de frases inflamadas ou espirituosas de uma turma renomada. O poeta Ferreira Gullar, por exemplo, é autor da sentença “A crase não foi feita para humilhar ninguém”, marco da tolerância gramatical ao acento gráfico. O escritor Moacyr Scliar discorda, em uma deliciosa crônica “Tropeçando nos acentos”, e afirma que a crase foi feita, sim, para humilhar as pessoas; e o humorista Millôr Fernandes, de forma irônica e jocosa, é taxativo: “ela não existe no Brasil”. O assunto é tão candente que, em 2005, o deputado João Herrmann Neto propôs abolir esse acento do português do Brasil por meio do projeto de lei 5.154, pois o considerava “sinal obsoleto, que o povo já fez morrer”. Bombardeado, na ocasião, por gramáticos e linguistas que o acusavam de querer abolir um fato sintático como quem revoga a lei da gravidade, Herrmann logo desistiu do projeto. A grande utilidade do acento de crase no a, entretanto, que faz com que seja descabida a proposta de sua extinção por decreto ou falta de uso, é: crase é, antes de mais nada, um imperativo de clareza. Não raro, a ambiguidade se dissolve com a crase − em outras, só o contexto resolve o impasse. Exemplos de casos em que a crase retira a dúvida de sentido de uma frase, lembrados por Celso Pedro Luft no hoje clássico Decifrando a crase: cheirar a gasolina X cheirar à gasolina; a moça correu as cortinas X a moça correu às cortinas; o homem pinta a máquina X o homem pinta à máquina; referia-se a outra mulher X referia-se à outra mulher. O contexto até se encarregaria, diz o autor, de esclarecer a mensagem; um usuário do idioma mais atento intui um acento necessário, garantido pelo contexto em que a mensagem se insere. A falta de clareza, por vezes, ocorre na fala, não tanto na escrita. Exemplos de dúvida fonética, sugeridos por Francisco Platão Savioli: “A noite chegou”; “ela cheira a rosa”; “a polícia recebeu a bala”. Sem o sinal diacrítico, construções como essas serão sempre ambíguas. Nesse sentido, a crase pode ser antes um problema de leitura do que prioritariamente de escrita. (Adaptado de: PEREIRA Jr., Luiz Costa. Revista Língua portuguesa, ano 4, n. 48. São Paulo: Segmento, outubro de 2009. p. 36-38) A melhor explicação para o uso da vírgula, na frase do último parágrafo “Nesse sentido, a crase pode ser antes um problema de leitura do que prioritariamente de escrita”, é:

Alternativas

  1. A)

    “As orações coordenadas aditivas ligadas pela conjunção e devem ser separadas por vírgula se os sujeitos forem diferentes. Se o sujeito for o mesmo, não há o uso da vírgula, presume-se”.

  2. B)

    “As orações adverbiais, desenvolvidas ou reduzidas, podem iniciar o período, findá-lo ou interpor-se na oração principal. Quase sempre aparecem separadas ou isoladas por vírgula”.

  3. C)

    “O vocativo é um termo relacionado com a função fática da linguagem; como regra, isola-se por vírgula”.

  4. D)

    “A datação que se segue a nomes de documentos, periódicos, atos normativos, locais etc., como regra geral, separa-se ou isola-se por vírgula”.

  5. E)

    “É comum vir isolado por vírgula o vocábulo ou expressão com valor retificativo ou explanatório, embora, às vezes, possa aparecer sem esse sinal de pontuação”.

Gabarito e comentário

Resposta correta: E

“Nesse sentido” conecta a conclusão ao raciocínio anterior e aparece isolado por vírgula no início da oração. A alternativa E descreve expressão de valor explicativo ou de retomada discursiva. Não se trata de vocativo, data ou de duas orações coordenadas com sujeitos distintos.

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